"Não estamos a precisar de ninguém"
Esta é a frase que ouço tantas vezes ao longo dos meus dias. A cada porta que bato, numa tentativa voluntária de perguntar se, porventura, não estão a precisar de alguém para trabalhar, ouço sempre um NÃO bem redondo. Isto ao referir as pessoas que me respondem, pois existem muitas que nem a porta abrem, ignoram-me.
Existem várias formas de dizer que não. Eu pelo menos conheço duas: o "não" como quem diz "temos pena mas de momento não estamos a contratar ninguém"; e o "não" do género "põem-te andar!". Esses é que custam. Sinto-me como um cão escorraçado, aliás, nem os cães merecem tal tratamento.
Ontem, fui a três fábricas pedir trabalho. Apenas umas horas, algo que me faça sentir útil, ter objetivos para o dia, sentir-me parte desta sociedade. "Não estamos a precisar de ninguém" - escuto. Acho que consigo fazer uma coleção destas frases que enchiam um caderno inteiro, como daqueles castigos que nos davam na escola quando cometíamos um erro numa palavra e a teríamos que escrever repetidamente.
Por vezes tenho vontade de desistir, mas não posso, porque eu preciso de viver. Então, levanto a cabeça e vou bater a outra porta, esperando que a sorte me espreite por ela.

