O dia amanheceu cinzento
O dia amanheceu cinzento. Lá fora, as cores da vida são baças, exangues. Existe um ambiente pesado no ar, consigo senti-lo. Um nevoeiro denso abate-se sobre esta aldeia que está de luto e que chora aquele seu conterrâneo que perdeu a vida no trágico acidente, aquele onde uma carrinha sobrelotada de emigrantes, com destino a Portugal, colidiu, de frente, com um camião na noite de quinta-feira, fazendo doze vítimas.
Vinha passar a Páscoa junto da família, mas não chegou ao seu destino. Deixou duas filhas, uma ainda menor de idade que não se conforma com a morte do pai. Iria ser o útimo ano que desempenhava funções na Suiça, voltaria para Portugal de vez, para descansar de uma vida de trabalho. Quis o destino, esse maldito destino, que ele voltasse mais cedo, para o descanso eterno.
Não pude deixar de passar pela casa onde vive a família, hoje de manhã. Não entrei, não disse nada, faltou-me a coragem. Aquela casa está mais cinzenta que as outras, como se uma nuvem negra se abate-se sobre ela, tranformando tudo em negro.
Ouço alguém a chorar. Um choro de uma criança, carregado de dor. Um coração pequenino que sangra e causa uma dor insuportável!
A vida é fria, é cruel.
Também eu estou de luto.

