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Filipe

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Filipe

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

21
Mai18

De coração cheio

Filipe

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"Meu homem, cada um é como é, e ninguém tem nada a ver com isso, o importante é que tu estejas feliz. Se tu estás feliz, eu também estou feliz. Não deixas de ser meu filho por causa disso e eu amar-te-ei sempre tal como és".

 

Estas foram as palavras do meu pai quando soube da minha orientação sexual. Disse-o por telefone no dia do meu aniversário. O melhor presente que poderia receber dele. Estava num hipermercado e nesse momento esqueci-me completamente do que queria comprar. Andava pelos corredores sem nada ver tal era a minha ânsia de pular de alegria! Senti vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo.

Sempre tive receio da reação do meu pai quando soubesse. Sempre escondi dele a minha verdadeira identidade. Nunca quis desiludi-lo, nunca quis quebrar o estereótipo do filho perfeito e desejado, do qual sempre teve um orgulho enorme. Envergonha-lo talvez perante a sua família... nós sabemos o quanto as pessoas podem magoar ao criticar certas "escolhas". Quando ele me perguntava onde estava a minha namorada, eu respondia-lhe sempre com palavras vagas, dizendo-lhe que "eu vou namorando".

 

Contei ao Dany, o meu namorado, e tocamo-nos ao de leve na mão. A minha vontade era abraça-lo e beija-lo ali no meio da multidão que observava as promoções, mas contive-me porque ainda tenho medo da reação das pessoas. Adoro quando posso aninhar o meu pescoço no ombro dele num abraço apertado. Nos braços dele sinto-me seguro, sinto-me leve, sinto que esperei toda a minha vida por ele.

 

Se isto não é a felicidade, creio que andarei lá muito perto.

 

 

26
Mai16

No Centro de Dia

Filipe

Ontem à tarde decidi fazer uma visita ao Centro de Dia aqui da minha zona. Falaram-me que o poderia fazer durante uma hora, das 14:30 até às 15:30. Fiquei curioso e na expectativa de como me iriam receber. Ao início tenho sempre esta dificuldade em relacionar-me com as outras pessoas, acanho-me.

 

Levei um DVD do Grupo Folclórico do qual faço parte já há 10 anos para poderem ver e divertirem-se, pois os velhinhos gostam muito disso, eram o seu divertimento, nas suas juventudes.

 

Cheguei e deparei-me com uma sala ampla onde vi muitas senhoras, e alguns senhores em minoria, sentados a ver televisão. Uma série qualquer que estava a dar na RTP. Alguns dormitavam, outros assistiam com atenção. Porém, mal cheguei, todos os rostos enrugados e olhares curiosos, outros desconfiados, se voltaram para mim.

Disse "Boa Tarde" com um sorriso rasgado. Responderam-me quase em uníssono. Alguns falaram com o seu colega do lado, certamente a perguntarem quem eu era e o que estava lá a fazer. Nem eu próprio sabia muito bem o que fazer! Fui movido pelo coração. E ele transmitiu-me que eu deveria estar ali naquele preciso momento.

 

Eis que, de repente, vi um rosto conhecido. O Sr. Chico estava ali sentado, o meu antigo vizinho, com a sua esposa. Dirigi-me logo a ele e cumprimentei-o.

Disse-me que estavam melhor ali, tinham companhia para conversar e eram bem tratados. Fiquei contente por o saber. Ouvi-o atentamente, sempre concordando com tudo. Depois lá me perguntou que idade eu tinha agora. Respondi-lhe que já tinha feito 30 anos à cerca de umas semanas atrás.

 

"Já?!" - respondeu-me de uma forma tão surpresa e admirada. Pois é Sr. Chico, o tempo vai passando.

"Quando te conheci eras ainda um putozito! Pequenito!" - recordou ele. E a minha memória recuou até esses tempos tão bons da minha infância e que nunca vou esquecer.

 

De seguida, dirigi-me a outra senhora que conhecia quando ia rezar o terço todos os dias durante o mês de maio, o mês de Maria.

"Estou aqui agora, o meu sobrinho está a pagar para eu estar aqui. Antes tinha algum dinheiro, mas dei tudo quando vim para aqui, agora fiquei sem nada" - confidenciou-me a Sr.ª Gertrudes com um olhar triste. "É assim a vida".

 

Outras senhoras disseram-me que eram irmãs e estavam ali juntas. Uma outra senhora não quis falar comigo, disse-me que estava tudo bem com ela e a conversa encerrou ali. Afinal ninguém era obrigado a falar comigo.

 

"Tu tens que pôr mais côdeas de pão na sopa que estás muito magrinho!!" - disse-me a senhora Maria. "Mas estás bem de saúde?" Disse que estava tudo bem, e isso é que importa.

Muitos perguntaram de onde eu era e filho de quem. Alguns reconheceram-me a mim e à minha famílias, outros não.

O senhor Joaquim, homem forte e bastante brincalhão, perguntou-me se já tinha namorada. Respondi que sim, tenho namorada sim senhor! Não podia responder a verdade, senão ainda escandalizava toda a gente presente naquela sala!

Disse-me que eu dava para ser sacristão!! E todos se riram da piada. Eu sacristão?! Não me parece Sr. Joaquim!

 

Saí de lá com o coração tão cheio! Todo ele transboradava alegria, pois eu proporcionei um dia diferente a todos aqueles velhinhos. Todos tiveram uma visita, uns de alguém que não conheciam, mas todos eles tiveram uma visita, pois eu fiz questão de falar com todas as pessoas. Temos tanto a aprender com eles.

 

Inscrevi-me para fazer trabalho voluntário lá, e peço aos céus para que me aceitem, pois nada me faria mais feliz agora. Quero mesmo muito tomar conta daqueles velhinhos, fazer tudo o que puder por eles, ensinar-lhes o que sei, aprender com eles. Não quero nada em troca, só os seus sorrisos e as suas histórias pagam o maior ordenado do mundo!

 

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