O convite
Um convite chegou-me às mãos num envelope branco, escrito com o meu nome numa caligrafia solta. Soube logo do que se tratava e o meu coração encheu-se de orgulho, admirando a coragem do meu primo, uma bravura que certamente eu não teria. É preciso ser-se muito homem neste mundo para assumir-se como homossexual.
Ao abrir o sobrescrito, este continha um convite de casamento muito original. João e Steven decidiram casar-se em Portugal, ao abrigo da lei portuguesa, convidando todos os familiares e amigos, sem exceção. Uns aceitaram de bom grado em comparecer à celebração; outros aceitam apenas por curiosidade, afinal é algo de diferente; os demais não aceitarão, alegando que é um acontecimento que não faz sentido, não é normal.
Evidentemente que eu vou, faz todo o sentido que eu vá, faço questão em comparecer e felicitar os recém-casados. Será algo único e inesquecível que terei todo o prazer em participar.
Trata-se de amor, de felicidade. É a união de dois seres humanos que se amam e se completam, independentemente da orientação sexual que têm. Guardo este convite com todo o cuidado dentro do envelope e, por vezes, olho-o ainda com mais admiração. Penso em como irei vestido e várias ideias surgem-me na cabeça. Não que queira tirar protagonismo aos noivos, nem pensar! Mas quero marcar a minha presença e fazer desse dia o início de uma longa caminhada para que todos nós sejamos aceites no seio familiar e na sociedade em geral.

