À conversa com... André Mendonça (parte 2)
S: Amas o teu namorado incondicionalmente?
A: Estamos juntos faz 8 meses no próximo dia 6 de junho, e têm sido, de facto, os melhores tempos da minha vida. É o meu primeiro relacionamento sério, estou orgulhoso de cada passo, cada conquista, cada vitória...de ambos. Após muitos casos falhados, e lágrimas derramadas, já eu a pensar que jamais alguém poderia amar-me, e isso ser reciproco, eis que aí conheci por incrível acaso e destino, a minha metade da laranja… Tudo começou, estávamos meados de outubro de 2015 sendo mais concreto numa noite morna de outono, sentia-me sozinho e triste, estava magoado com um rapaz que supostamente teria interesse em mim, mas que desapareceu misteriosamente. Tudo o que não queria era algo sério, estava cansado de tentar, e tentar, e acabava sempre por sair magoado... mas lá está a vida às vezes trama-nos umas vezes para pior ou para melhor, que acabou por ser o caso, acabei por ganhar inesperadamente uma companhia para dormir e aliviar o stress, ... foi uma noite maravilhosa. E, a cada dia que passa cada vez tenho mais certezas de que encontrei o homem da minha vida, e que um dia quero passar a fazer ainda mais parte da dele: casar e ter filhos. Nada na vida é eterno, mas amo-o como nunca fui capaz de amar alguém antes, consigo agora entender o verdadeiro significado de “amar alguém”!
S: São felizes juntos?
A: Somos muito felizes um com o outro, temos os nossos momentos menos bons, as nossas turras como todos os casais, mas ao longo desta viagem estamos a aprender imenso sobre a vida juntos, partilhando as nossas aprendizagens e experiências.
No inicio o que ambos apenas queríamos era uma amizade colorida, mas com o evoluir do tempo o cupido fez das suas. É absolutamente incrível e impensável encontrar alguém com a cabeça no lugar, num site de engate muito popular, “Manhunt”. Este é daqueles sítios onde jamais se pensa que se encontra alguém para algo sério, verdadeiro e duradouro.
É tão incrível como um "Não queres companhia para dormir?" fez o encanto daquela noite. Parece um filme… foi no momento certo, à hora certa - Destino. Desde que o vi, que senti o “clique”, algo me disse que ali à minha frente estaria uma pessoa muito especial, com muito para dar-me: amor, carinho, amizade, etc.
S: Há quem diga que homossexualidade é doença. O que tens a dizer a essas pessoas?
A: As pessoas que ainda pensam que homossexualidade é uma doença deveriam evoluir em pessoa e em ser. Não impor barreiras ao amor.
A homossexualidade é um pequeno detalhe que faz parte de nós desde a nossa existência, é uma forma de amar tal como a heterossexualidade, é bonita, verdadeira, real, sincera.
S: Finalmente deste a cara num programa de televisão, contando abertamente a tua história. Valeu a pena?
A: Sim, valeu a pena e foi das melhores coisas que fiz. Decidi finalmente que já estava mais do que na hora de partilhar a minha história de vida, a minha vivência, por forma a inspirar outros, e a demonstrar a força a coragem e orgulho que tenho em ser quem sou. E também para poder contribuir para uma diminuição do preconceito e homofobia existentes! O feedback que tenho obtido tem sido muito positivo e tenho encontrado pessoas com bom coração, que me querem ajudar naquilo que podem. Muitos dos que viram ficaram comovidos com o meu testemunho e felicitaram a minha coragem para ser quem sou sem medos.
S: Qual é o contacto que tens com os teus pais neste momento?
A: Nenhum absolutamente. Faz cinco meses, dia 25 de maio, que toda a minha família se esquece que eu alguma vez existi.
À medida que o tempo passa, a teoria de não ter sido um filho desejado faz cada vez mais sentido... Como podem gostar de mim e amar-me, tendo feito aquilo que me fizeram? Chamar-me de "aberração", "paneleiro", dizer que pessoas como eu "não são nada, nem ninguém", que "eu é que escolhi esta vida", ser chamado de "drogado", entre outras coisas piores.
S: Como te sentes sabendo que os teus pais te abandonaram devido à tua orientação sexual?
A: Custa não ter aquele aconchego, sentir-se posto de parte, tudo por causa de algo que faz parte de mim "ser homossexual" e isso não me define, nem faz de mim uma má pessoa! É triste ter 20 anos (e ainda muito pela frente) ninguém imagina o que é ficar sem família do dia para a noite, e ter a vida num enorme reboliço como aconteceu comigo. Os meus pais chegaram a colocar-me substancias na comida para eu andar sedado e inclusive recorrer a artes do oculto (bruxarias) para me reconverter à força, e isso está errado e não se faz.
S: O que gostarias de lhes dizer neste momento?
A: Família não se lembra apenas dos seus quando estes fazem anos, isso para mim não vale nada... Ainda existem pessoas que teimam que a família gosta de mim, eu tenho a certeza de que se gostassem mesmo de mim, não é só no dia em que eu nasci, que se lembram, mas sim todos os dias. Eles deixaram de se importar comigo, deixaram-me da mão e completamente desamparado, sem casa e sem dinheiro. Pobres seres que não sabem enxergar o que realmente importa: “ser feliz” e estar bem com quem se ama. Pessoas e mais pessoas neste mundo imenso…querem lá esses seres saber de mim, se importar verdadeiramente comigo, me dar o devido valor que mereço, reconhecer a grande pessoa que eu sou, e a minha parte humana, esquecer os meros detalhes da minha intimidade pessoal.
S: Sentes saudades deles? Ou revolta?
A: Uma ligeira revolta pelo facto de como pode um pai e uma mãe fazer aquilo que eles me fizeram durante este tempo todo! Mas acima disso sinto pena por estes seres serem incapazes de ver o que há de belo em mim. Não há ganhos na vida sem sofrimento, aprendemos a nos tornar-mos mais fortes, e mais maduros. Quanto à família, a única que tenho tido mais perto de mim, tem sido os meus amigos e o meu namorado, tendo este feito mais por mim do que eles a vida inteira. A família de sangue que esperava dignamente que me respeitasse, apenas me mata aos poucos e poucos, e puramente isto: Não me interessa falar com esses seres, nem ter nada a ver com esses seres. Se esses seres alguma vez me respeitassem jamais tinha pensado em sair de casa e deixar tudo para trás, para poder ser eu próprio e ser feliz.
Com essa ida também descobri que a família alguma vez entenderá o porque, de eu ter saído de casa e abandonado os estudos, porque a minha palavra vale zero, e o problema é ser assim como sou, homossexual, dizem que não vou casar, que não vou ser nada, que sou um brutamontes, que sou um estúpido, e nunca vou ser alguém na vida! E cheguei à conclusão que não vale a pena, custou imenso estar uma semana com aquelas pessoas retardadas e hipócritas.
S: Algum dia haverá espaço para o perdão?
A: Sinceramente isso irá ser muito complicado e acho que impossível, as mágoas e as marcas ficam para a vida inteira.
S: O que dirias a alguém que, neste momento, está a passar pela mesma situação?
A: É preciso determinação, ser-se muito mas muito forte, ter a coragem para enfrentar tudo e todos, lutar para poder vencer na vida.
