Ler
O livro está sempre posicionado na cómoda do meu quarto, vejo-o sempre que lá passo, e, por vezes, contemplo a sua capa, a grafia do título, a textura das folhas.
Quando consigo ter algum tempo para ler, depois de todos os meus afazeres, coloco os meus óculos que uso só para a leitura, sento-me no sofá da sala (ou em dias mais frios sento-me na minha cama aconchegado com os cobertores nas pernas), pego no livro, percorro as folhas até ao marcador que sempre uso há mais de 10 anos e começo a ler. O mundo à minha volta para, deixo de ouvir todos os outros sons, esqueço-me até dos meus próprios sentimentos e vivo a história que tenho entre mãos.
As palavras correm à medida que passo por elas. Ao lê-las, elas ficam guardadas na minha memória, arrumando-se para que as próximas caibam na mesma gaveta do cérebro, aquelas gavetas imaginárias onde guardamos as nossas lembranças e onde eu tenho uma bem grande que dá para armazenar livros e mais livros que fui lendo ao longo da minha vida.
O meu telemóvel vibra, informando-me que acabo de receber uma nova mensagem. Por vezes sinto-o, outras vezes não e fico admirado quando vejo a luz a piscar porque realmente não dei por ela. Não é à toa quando digo que o mundo à minha volta deixa de existir quando inicio a leitura.
As horas passam a correr e chega o momento em que tenho de voltar a colocar o marcador numa nova página e ficar na expectativa de como a história irá se desenvolver. Volto a posicionar o livro na cómoda e ele aguarda que eu volte para o pegar e devorar as suas frases.
No fim, entrego-o à biblioteca onde o fui buscar, ele fica no lugar que lhe é respetivo e aguarda pacientemente que outro leitor o leve e o faça conhecer outra casa, outras divisões, outros hábitos de leitura e outros lugares onde possa ficar temporariamente.

