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Filipe

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Filipe

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

22
Nov16

Ainda existe preconceito? Sim, existe

Filipe

Num dia comum como muitos outros, não há muito tempo atrás, no momento em que calcorreava o caminho que faço habitualmente por desporto, deparei-me com mais uma situação de preconceito.

Nesse meu trajeto que faço todos os dias - ou melhor dizendo, fazia! -, passava sempre por uma fábrica onde os funcionários são todos do sexo masculino. Ora estava eu absorto nos meus pensamentos, com a fábrica a meros metros de distância mais à frente, quando ouço o seguinte: "Olha vem aí o paneleiro!". Estas palavras foram proferidas em alto e bom som para que todos os que estavam presentes me pudessem observar enquanto ele apontava diretamente para mim, olhando-me nos olhos e sabendo que eu o estava a ouvir.

 

Disse para mim próprio que não ia permitir que eles vissem o quanto aquelas palavras me afetaram e continuei a caminhar sempre ao mesmo ritmo enquanto passava pela empresa, totalmente consciente que todos os olhares estavam postos em mim, ouvindo sempre um burburinho de comentários e aqueles risinhos trocistas.

O tal rapaz continuou com o seu discurso de macho: "Ó Miguel, olha ali o teu namorado a passar, anda ver!". De seguida ouvi um assobio, daqueles assobios atrevidos e apreciativos que os homens lançam às mulheres que passam por eles, e depois não ouvi mais nada, pois os meus passos já me tinham levado para longe dali.

 

Durante a minha vida aprendi a proteger-me contra todas estas palavras, como uma capa ou uma carapaça das tartarugas, contudo, e como costumam dizer, elas não matam mas mordem. Senti-me humilhado e, agora, não tenho coragem de passar lá novamente. Faço um desvio. Sei que faço mal, mas prefiro assim. É que custa um pouco ouvir certas coisas e ser o centro de atenções indesejadas.

 

homofobia-bule-voador.jpg

 

13
Out16

O convite

Filipe

Um convite chegou-me às mãos num envelope branco, escrito com o meu nome numa caligrafia solta. Soube logo do que se tratava e o meu coração encheu-se de orgulho, admirando a coragem do meu primo, uma bravura que certamente eu não teria. É preciso ser-se muito homem neste mundo para assumir-se como homossexual.

Ao abrir o sobrescrito, este continha um convite de casamento muito original. João e Steven decidiram casar-se em Portugal, ao abrigo da lei portuguesa, convidando todos os familiares e amigos, sem exceção. Uns aceitaram de bom grado em comparecer à celebração; outros aceitam apenas por curiosidade, afinal é algo de diferente; os demais não aceitarão, alegando que é um acontecimento que não faz sentido, não é normal.

Evidentemente que eu vou, faz todo o sentido que eu vá, faço questão em comparecer e felicitar os recém-casados. Será algo único e inesquecível que terei todo o prazer em participar.

 

Trata-se de amor, de felicidade. É a união de dois seres humanos que se amam e se completam, independentemente da orientação sexual que têm. Guardo este convite com todo o cuidado dentro do envelope e, por vezes, olho-o ainda com mais admiração. Penso em como irei vestido e várias ideias surgem-me na cabeça. Não que queira tirar protagonismo aos noivos, nem pensar! Mas quero marcar a minha presença e fazer desse dia o início de uma longa caminhada para que todos nós sejamos aceites no seio familiar e na sociedade em geral.

 

IMG_20161013_104420.jpg

 

14
Set16

Ouço cada coisa...

Filipe

Se há coisa que me irrita, assim aquela irritação que pica, são as opiniões das pessoas em relação a certos assuntos que desconhecem totalmente. A opinião delas é que conta, é a mais acertada e tudo deveria ser como elas dizem, pois são elas que têm a razão. É que faziam melhor figura se estivessem caladas.

Num destes dias ouvi uma barbaridade deste género:

 

"Há tanta coisa com que os políticos se devem preocupar no nosso país, e andam esses cabrões preocupados em aceitar a adoção de crianças para os paneleiros. Onde é que já se viu isto? Só mesmo neste país. Quando a criança crescer vai chamar pelo pai e pela mãe... e a mãe onde está?"

 

Tais comentários revoltam-me imenso!

Primeiro porque são vindos de pessoas completamente mal educadas, mal formadas, com imensa falta de civismo e ignorantes até.

Segundo porque, na minha opinião, o assunto das crianças abandonadas neste país e nas condições deploráveis em que muitas delas vivem, deve ser um assunto de maior importância, pois são as crianças o futuro do nosso país, e penso que não estou muito enganado assim. Gostaria de perguntar a estas pessoas o seguinte: é melhor deixar as crianças abandonadas por aí e deixa-las em orfanatos onde são mal tratadas e sujeitas a qualquer tipo de humilhação? Pensem um pouco antes de dizerem certas coisas.

 

Quero também deixar bem claro uma coisa: um paneleiro é um indivíduo que faz panelas. Essas pessoas a que vocês se referem como paneleiros são humanos, e como tal têm que ser aceites na nossa sociedade, são homossexuais, e como qualquer cidadão português têm direito a serem respeitados.

Quantas crianças são abandonadas pela mãe e crescem completamente saudáveis ao lado de um pai que faz de pai e mãe ao mesmo tempo? Muitas delas.

Pergunto-me o que fariam essas pessoas se os seus filhos lhe dissessem que são homossexuais, o que fariam? Colocava-os fora de casa? Certamente que sim.

 

03
Jul16

O que se passa com as mães deste país?

Filipe

Por norma já não vejo muito o telejornal. Vê-lo deixa-me num estado de preocupação, de desânimo, por aquilo em que a nossa sociedade se está a tornar. E então, ultimamente, tem sido uma desgraça completa de crimes hediondos.

 

O que se passa com as mães deste país? Volto a perguntar, desta vez em negrito, a cor do luto por todas as crianças que têm sofrido horrores nas mãos destas progenitoras. Aliás, chama-las de mães é uma ofensa para todas as mães com um M grande que certamente ainda existem, não só neste país, mas também por esse mundo fora.

 

Eu não sou pai. Não sei qual o sentimento de amor por um filho, mas faço ideia de que seja um amor tão grande, incondicional, capaz de tudo! E não acredito, nem por um momento, que esse amor seja capaz de matar, por qualquer razão.

 

E fico por aqui, pois não me quero alongar muito mais neste assunto. Quero apenas, desta forma simples, mostrar a minha solidariedade para todos os anjos que partiram e que nos deixam o coração mais pesado, sabendo desta triste realidade que está a ensombrar o nosso país.

 

palavra-mae-decorativo.jpg

 

01
Jul16

És assumido?

Filipe

Quando me fazem esta pergunta não sei o que responder. Afinal o que é ser gay assumido? É ter alguma coisa escrita na testa? Ou colocar uma placa nas costas com umas letras garrafais escritas "eu sou gay"? Sinceramente é o que me apetece responder, mas este assunto é mais complicado do que parece.

 

Será que ser gay assumido é andar na rua de mão dada com o nosso companheiro, trocar carícias e beijos em público? Então eu não sou um gay assumido. Porque tenho medo desta sociedade ainda de mente muito fechada. Já fui apedrejado, não sei o que viria a seguir.

 

A minha família mais próxima sabe desta minha orientação. Uns aceitam muito bem e apoiam-me, outros preferem não falar do assunto. Se ser gay assumido é a família e amigos saberem da minha orientação, então sou assumido. Não sei.

 

O importante é que seja feliz e que me sinta bem comigo mesmo. E sabem que mais? Adoro ser como sou. Adoro ser gay!

 

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