Bom dia

Por hoje é só.
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Por hoje é só.
Num dia comum como muitos outros, não há muito tempo atrás, no momento em que calcorreava o caminho que faço habitualmente por desporto, deparei-me com mais uma situação de preconceito.
Nesse meu trajeto que faço todos os dias - ou melhor dizendo, fazia! -, passava sempre por uma fábrica onde os funcionários são todos do sexo masculino. Ora estava eu absorto nos meus pensamentos, com a fábrica a meros metros de distância mais à frente, quando ouço o seguinte: "Olha vem aí o paneleiro!". Estas palavras foram proferidas em alto e bom som para que todos os que estavam presentes me pudessem observar enquanto ele apontava diretamente para mim, olhando-me nos olhos e sabendo que eu o estava a ouvir.
Disse para mim próprio que não ia permitir que eles vissem o quanto aquelas palavras me afetaram e continuei a caminhar sempre ao mesmo ritmo enquanto passava pela empresa, totalmente consciente que todos os olhares estavam postos em mim, ouvindo sempre um burburinho de comentários e aqueles risinhos trocistas.
O tal rapaz continuou com o seu discurso de macho: "Ó Miguel, olha ali o teu namorado a passar, anda ver!". De seguida ouvi um assobio, daqueles assobios atrevidos e apreciativos que os homens lançam às mulheres que passam por eles, e depois não ouvi mais nada, pois os meus passos já me tinham levado para longe dali.
Durante a minha vida aprendi a proteger-me contra todas estas palavras, como uma capa ou uma carapaça das tartarugas, contudo, e como costumam dizer, elas não matam mas mordem. Senti-me humilhado e, agora, não tenho coragem de passar lá novamente. Faço um desvio. Sei que faço mal, mas prefiro assim. É que custa um pouco ouvir certas coisas e ser o centro de atenções indesejadas.
Um convite chegou-me às mãos num envelope branco, escrito com o meu nome numa caligrafia solta. Soube logo do que se tratava e o meu coração encheu-se de orgulho, admirando a coragem do meu primo, uma bravura que certamente eu não teria. É preciso ser-se muito homem neste mundo para assumir-se como homossexual.
Ao abrir o sobrescrito, este continha um convite de casamento muito original. João e Steven decidiram casar-se em Portugal, ao abrigo da lei portuguesa, convidando todos os familiares e amigos, sem exceção. Uns aceitaram de bom grado em comparecer à celebração; outros aceitam apenas por curiosidade, afinal é algo de diferente; os demais não aceitarão, alegando que é um acontecimento que não faz sentido, não é normal.
Evidentemente que eu vou, faz todo o sentido que eu vá, faço questão em comparecer e felicitar os recém-casados. Será algo único e inesquecível que terei todo o prazer em participar.
Trata-se de amor, de felicidade. É a união de dois seres humanos que se amam e se completam, independentemente da orientação sexual que têm. Guardo este convite com todo o cuidado dentro do envelope e, por vezes, olho-o ainda com mais admiração. Penso em como irei vestido e várias ideias surgem-me na cabeça. Não que queira tirar protagonismo aos noivos, nem pensar! Mas quero marcar a minha presença e fazer desse dia o início de uma longa caminhada para que todos nós sejamos aceites no seio familiar e na sociedade em geral.
Se há coisa que me irrita, assim aquela irritação que pica, são as opiniões das pessoas em relação a certos assuntos que desconhecem totalmente. A opinião delas é que conta, é a mais acertada e tudo deveria ser como elas dizem, pois são elas que têm a razão. É que faziam melhor figura se estivessem caladas.
Num destes dias ouvi uma barbaridade deste género:
"Há tanta coisa com que os políticos se devem preocupar no nosso país, e andam esses cabrões preocupados em aceitar a adoção de crianças para os paneleiros. Onde é que já se viu isto? Só mesmo neste país. Quando a criança crescer vai chamar pelo pai e pela mãe... e a mãe onde está?"
Tais comentários revoltam-me imenso!
Primeiro porque são vindos de pessoas completamente mal educadas, mal formadas, com imensa falta de civismo e ignorantes até.
Segundo porque, na minha opinião, o assunto das crianças abandonadas neste país e nas condições deploráveis em que muitas delas vivem, deve ser um assunto de maior importância, pois são as crianças o futuro do nosso país, e penso que não estou muito enganado assim. Gostaria de perguntar a estas pessoas o seguinte: é melhor deixar as crianças abandonadas por aí e deixa-las em orfanatos onde são mal tratadas e sujeitas a qualquer tipo de humilhação? Pensem um pouco antes de dizerem certas coisas.
Quero também deixar bem claro uma coisa: um paneleiro é um indivíduo que faz panelas. Essas pessoas a que vocês se referem como paneleiros são humanos, e como tal têm que ser aceites na nossa sociedade, são homossexuais, e como qualquer cidadão português têm direito a serem respeitados.
Quantas crianças são abandonadas pela mãe e crescem completamente saudáveis ao lado de um pai que faz de pai e mãe ao mesmo tempo? Muitas delas.
Pergunto-me o que fariam essas pessoas se os seus filhos lhe dissessem que são homossexuais, o que fariam? Colocava-os fora de casa? Certamente que sim.
Por norma já não vejo muito o telejornal. Vê-lo deixa-me num estado de preocupação, de desânimo, por aquilo em que a nossa sociedade se está a tornar. E então, ultimamente, tem sido uma desgraça completa de crimes hediondos.
O que se passa com as mães deste país? Volto a perguntar, desta vez em negrito, a cor do luto por todas as crianças que têm sofrido horrores nas mãos destas progenitoras. Aliás, chama-las de mães é uma ofensa para todas as mães com um M grande que certamente ainda existem, não só neste país, mas também por esse mundo fora.
Eu não sou pai. Não sei qual o sentimento de amor por um filho, mas faço ideia de que seja um amor tão grande, incondicional, capaz de tudo! E não acredito, nem por um momento, que esse amor seja capaz de matar, por qualquer razão.
E fico por aqui, pois não me quero alongar muito mais neste assunto. Quero apenas, desta forma simples, mostrar a minha solidariedade para todos os anjos que partiram e que nos deixam o coração mais pesado, sabendo desta triste realidade que está a ensombrar o nosso país.
Quando me fazem esta pergunta não sei o que responder. Afinal o que é ser gay assumido? É ter alguma coisa escrita na testa? Ou colocar uma placa nas costas com umas letras garrafais escritas "eu sou gay"? Sinceramente é o que me apetece responder, mas este assunto é mais complicado do que parece.
Será que ser gay assumido é andar na rua de mão dada com o nosso companheiro, trocar carícias e beijos em público? Então eu não sou um gay assumido. Porque tenho medo desta sociedade ainda de mente muito fechada. Já fui apedrejado, não sei o que viria a seguir.
A minha família mais próxima sabe desta minha orientação. Uns aceitam muito bem e apoiam-me, outros preferem não falar do assunto. Se ser gay assumido é a família e amigos saberem da minha orientação, então sou assumido. Não sei.
O importante é que seja feliz e que me sinta bem comigo mesmo. E sabem que mais? Adoro ser como sou. Adoro ser gay!
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