Gentes da minha terra #01
Hoje vou falar do Sr. António. Um senhor com cerca de 65 anos, divorciado à pouco tempo, que reaprendeu a viver sozinho. Tem nacionalidade venezuelana mas reside em Portugal já há bastantes anos. Já trabalhou em muitos escritórios, altos cargos, agora está aposentado e recebe uma parca reforma.
O Sr. António tem sempre muitas histórias para contar e eu adoro ouvi-las. Ouço-o atentamente, sem o interromper para ele não perder o raciocínio, pois eu quero absorver sempre tudo o que ele diz. Com o seu sotaque venezuelano, fumando a sua cigarrilha, as suas histórias fazem-me recuar no tempo, o tempo da sua juventude, outros tempos bem diferentes de agora, contados com paixão, ponderação, cativando assim o seu ouvinte.
As histórias que mais adoro ouvir são aquelas que ele conta aquando a sua estadia na tropa. Momentos difíceis de recordar, dificuldades inacreditáveis, difíceis de imaginar, mas nunca pus em causa a veracidade delas.
Diz-me, de olhos marcados pelo sofrimento, que dormiu imensas vezes ao relento, ao frio; bebia água das poças, perdia-se nas florestas e tinha que encontrar o caminho de regresso sozinho, sem comida, sem bens essenciais. Uma vida dura.
"Uma vez, estávamos todos nós sentados a limpar as nossas armas (elas tinham que ser limpas frequentemente, não podíamos deixa-las sujas, senão teríamos castigos) quando de repente, algum cadete que não trancou a arma como deveria ter feito, a fez disparar acidentalmente e o tiro acertou na nuca de um dos nossos parceiros. O rapaz, que teria uns 18 anos, não mais, morreu ali à nossa frente, ficou com a cabeça quase desfeita... nunca mais me esqueço desse momento, nunca mais!"
